“Existem três verdades: a minha, a sua e aquela que está acima de nós.”
-Victor Hugo

Sendo uma pessoa religiosa e tendo me interessado e estudado teologia desde cedo, eu não poderia deixar de aproveitar este espaço para escrever algo a respeito.
Em primeiro lugar, eu respeito e admiro todas as religiões. Também acredito que em todas elas há pessoas boas e ruins.
Por isso, custa-me entender como, mesmo após milênios de civilização, ainda não aprendemos a respeitar aqueles que possuem uma crença diferente da nossa. Como podem ainda existir a intolerância e os conflitos religiosos em nosso planeta? Qual é a lógica de praticar qualquer ato de violência em nome de um Deus de amor?
Para mim, o respeito à crença alheia é antes de tudo algo lógico. Afinal, com que autoridade alguém pode afirmar que a sua religião é a certa?
Essa pergunta veio à tona a minha mente quando ouvi um padre mais conservador pregar em uma missa que “as pessoas que não estavam ali na igreja estavam na fé errada”. Longe de mim falar mal dos padres que, muito pelo contrário, são figuras que eu admiro e respeito bastante. Estou apenas citando esse episódio específico para ilustrar o meu ponto.
Talvez algumas pessoas queiram argumentar: “Mas a verdade está na Bíblia!”. Só que a pergunta continua sendo a mesma: “com que autoridade alguém pode afirmar que a verdade está na Bíblia e não na Torá, no Bhagavad-Gita, no Livro dos Espíritos, no Ateísmo etc.?”. Para um cristão, a sua verdade pode estar na Bíblia (uma coleção de livros escrita por homens), mas para um muçulmano ela está no Alcorão (idem). Quem está certo e quem está errado?
Se ainda assim você consegue falar com convicção: “Sou eu que estou certo.”, baseado em que você sustenta esta afirmação? Se você pensa assim, há um vídeo muito interessante na internet do Professor Mário Sergio Cortella, intitulado “Sabe com quem está falando?” que eu recomendo que assista. Nele, você irá tomar consciência do tamanho na nossa pequenez diante do cosmos.
Não existe verdade nesse caso, existe a fé individual de cada um. Religião é uma questão de crença e, portanto, deve ser respeitada.
Trago aqui está uma das mais lições mais valiosas, em minha humilde opinião, do Príncipe Sidarta Gautama, posteriormente conhecido como Buda, que significa o iluminado, desperto:
“Não acredite em algo simplesmente porque ouviu. Não acredite em algo simplesmente porque todos falam a respeito. Não acredite em algo simplesmente porque está escrito em livros religiosos. Não acredite em algo só porque seus professores e mestres dizem que é verdade. Não acredite em tradições só porque foram passadas de geração em geração. Mas, se depois de muita análise e observação, você vê que algo concorda com a razão e conduz ao bem e benefício de todos, aceite-o e viva-o.”
Meu objetivo aqui logicamente não é agredir a crença de ninguém, pelo contrário, é fortalecê-la. Se você tem convicção da sua religião e isso o leva ao bem, continue! É louvável alguém que tenha uma profunda fé e pratica o bem em nome disso.
Gandhi uma vez também disse: “Eu sou muçulmano, hindu, cristão… pois religiões são apenas diferentes caminhos que levam a um mesmo fim.”
 
Para concluir, deixo um texto que, independentemente de ser espírita, ao meu ver, sintetiza de maneira sublime a questão:

Fora da Igreja Não Há Salvação

Enquanto a máxima: Fora da caridade não há salvação apoia-se num princípio universal, abrindo a todos os filhos de Deus o acesso à felicidade suprema, o dogma: Fora da Igreja não há salvação apoia-se, não na fé fundamental em Deus e na imortalidade da alma, fé comum a todas as religiões, mas na fé especial em dogmas particulares. É, portanto, exclusivista e absoluto. Em vez de unir os filhos de Deus, divide-os. Em vez de incitá-los ao amor fraterno, mantém e acaba por legitimar a animosidade entre os sectários dos diversos cultos, que se consideram reciprocamente malditos na eternidade, sejam embora parentes ou amigos neste mundo; e desconhecendo a grande lei de igualdade perante o túmulo, separa-os também no campo-santo.

A máxima: Fora da caridade não há salvação é a consequência do princípio de igualdade perante Deus e da liberdade de consciência. Tendo-se esta máxima por regra, todos os homens são irmãos, e seja qual for a sua maneira de adorar o Criador, eles se dão às mãos e oram uns pelos outros. Com o dogma: Fora da Igreja não há salvação, anatematizam-se e perseguem-se mutuamente, vivendo como inimigos: o pai não ora mais pelo filho, nem o filho pelo pai, nem o amigo pelo amigo, desde que se julgam reciprocamente condenados, sem remissão. Esse dogma é, portanto, essencialmente contrário aos ensinamentos do Cristo e à lei evangélica.

Fora da verdade não há salvação seria equivalente a Fora da Igreja não há salvação, e também exclusivista, porque não existe uma única seita que não pretende ter o privilégio da verdade. Qual o homem que pode jactar-se de possuí-la integralmente, quando a área do conhecimento aumenta sem cessar, e cada dia que passa as ideias são retificadas? A verdade absoluta só é acessível aos Espíritos da mais elevada categoria, e a humanidade terrena não pode pretendê-la, pois que não lhe é dado saber tudo, e ela só pode aspirar a uma verdade relativa, proporcional ao seu adiantamento. Se Deus houvesse feito, da posse da verdade absoluta, a condição expressa da felicidade futura, isso equivaleria a um decreto de proscrição geral, enquanto que a caridade, mesmo na sua mais ampla acepção, pode ser praticada por todos. O Espiritismo, de acordo com o Evangelho, admitindo que a salvação, independente da forma de crença, contanto que a lei de Deus seja observada, não estabelece: Fora do Espiritismo não há salvação, e como não pretende ensinar toda a verdade, também não diz: Fora da verdade não há salvação, máxima que dividiria em vez de unir, e que perpetuaria a animosidade.

(O Evangelho Segundo o Espiritismo)


Gostou? Então, acesse agora: www.paulomachado.com para saber mais.