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Aqui está um Paradoxo filosófico/teológico que há mais de 20 anos tento resolver, quem sabe alguém iluminado aqui possa me esclarecer.

Como conciliar Livre Arbítrio e Onisciência Divina?

Eis duas crenças profundas que possuo, mas que não consigo enxergar uma possibilidade para ambas coexistirem.

Vamos começar conceituando…

Livre Arbítrio é a faculdade de podermos escolher livremente nossa conduta conforme o nosso desejo. É a liberdade de moldarmos e alterarmos nosso destino a todo instante conforme nossas escolhas e decisões.

Onisciência Divina é o princípio que admite que Deus é onisciente, ou seja, tem o conhecimento de absolutamente tudo – e isso inclui o conhecimento do passado, o presente e o futuro.

Se admitirmos que Deus conhece o futuro, podemos pensar que este futuro, então, já existe. Ele apenas ainda não aconteceu em nosso momento presente na linha do tempo. Se ele já aconteceu, nada do que fizermos agora será capaz de alterar esse destino, pois Deus já teria previsto todas as possíveis alterações no curso que culminariam no futuro de fato estabelecido.

Muito complexo? Deixa eu dar um exemplo para ficar mais claro…

Imaginemos a seguinte história hipotética:

Quando era adolescente, os amigos de João lhe ofereceram um cigarro para que ele experimentasse. Ele, com seu livre arbítrio, tinha a opção de aceitar ou recusar, mas escolheu aceitar. A partir daí começou a se viciar, tornou-se fumante e morreu precocemente de câncer no pulmão.

Apoiado sobre o princípio da Onisciência Divina, podemos afirmar que Deus já sabia que esta seria a trajetória da vida de João desde antes de seu nascimento.

Sim, ele tinha o livre arbítrio para recusar o cigarro ou a liberdade de, após tornar-se viciado, empregar esforços conscientes para superar o adicção. Entretanto, Deus já sabia quais seriam suas decisões, portanto, de certa forma, se isso já estava escrito, nada do que João pudesse ter feito durante sua vida, iria alterar esse trágico destino.

Nós poderíamos expandir esse raciocínio para:

  • o dia que iremos morrer
  • a pessoa com quem iremos nos casar
  • a carreira profissional que iremos ter
  • as doenças, finanças, acidentes etc.

E nada do que eu faça irá mudar aquilo que, aos olhos de Deus, já aconteceu. A mim, portanto, caberia tão somente, seguir o roteiro estipulado para minha vida.

Onde estaria, então, o nosso Livre Arbítrio se nosso destino já está traçado, ele apenas ainda não aconteceu?

Portanto, aqui estão dois postulados que acredito firmemente, mas que não consigo enxergar como ambos podem coexistir.

Deixo aqui, por conseguinte, este ponto de partida que, na minha opinião, prepara o palco para uma riquíssima discussão de Teologia Filosófica…

Imagine a seguinte situação:
O trem descontrolado
Um trem vai atingir 5 pessoas que trabalham desprevenidas sobre a linha. Mas você tem a chance de evitar a tragédia apertando um botão que leva o trem para outra linha, onde ele atingirá apenas uma pessoa. Você mudaria o trajeto, salvando as 5 e matando 1?
( ) Mudaria
( ) Não mudaria
Esse dilema moral foi apresentado a voluntários pelo filósofo e psicólogo evolutivo Joshua Greene, da Universidade Harvard. “É aceitável mudar o trem e salvar 5 pessoas ao custo de uma? A maioria das pessoas diz que sim”, afirma Greene em um de seus artigos. De fato, numa pesquisa feita pela revista Time, 97% dos leitores salvariam os 5.

O trem descontrolado (2)

Imagine a mesma situação anterior: um trem em disparada irá atingir 5 trabalhadores desprevenidos nos trilhos. Agora, porém, há uma linha só. O trem pode ser parado se você apertar um botão que empurrará sobre os trilhos um homem gordo que está em uma ponte sobre a ferrovia. Se você empurrá-lo para a linha, o trem vai parar, salvando as 5 pessoas, mas liquidando uma. Você mataria o homem gordo?
( ) Empurraria
( ) Não empurraria
(Observação: Falar “homem gordo” pode ser agressivo, mas é exatamente a forma como o dilema ficou conhecido nos Estados Unidos “Would you kill the fat man?” – David Edmonds: https://www.amazon.com.br/Would-You-Kill-Fat-Man/dp/0691165637)
Esses tipos de dilemas filosóficos são muito interessantes. Primeiro porque não existe solução ideal (o que torna a decisão mais difícil). E depois porque você não tem uma resposta pronta! Esta resposta deve ser criada a partir de seus valores. E, para isso, você precisa exercitar seu pensamento, seu senso de julgamento, seu raciocínio lógico, além de embarcar em uma jornada de Autoconhecimento em busca de seus valores. É um exercício precioso para o nosso crescimento e para aprendermos a pensar melhor.

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